quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MARAGOGIPE: lembranças e vivências da vovó


“Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me fazem ser quem eu sou”. 

Cora Coralina

Foi com muita satisfação que escolhi nesse trabalho falar sobre a história da minha avó paterna: localidade em que nasceu, cresceu e criou seus 13 filhos com muita dignidade e honra. Dentre esses 13 filhos sou filha do 9° filho, que na verdade foi o mais belo de todos os filhos da minha avó.
Falar sobre minha avó é pensar numa mulher forte, alegre, cuidadosa, firme (mas amável) e que criou seus filhos, por um determinado período, praticamente sozinha, pois meu  avô faleceu deixando o filho mais novo com um ano. Elaborar esse trabalho me faz reviver algumas lembranças, lembranças de quando eu era crianças e era cuidada por ela. Passava boa parte do meu dia em sua presença. É bem verdade que sempre gostei de ouvir aquelas histórias antigas sobre suas aventuras de vida. Contudo, essa pesquisa acrescentou-me uma visão maior e tem me levado a perceber aspectos que ainda não conhecia sobre a história dela e que, por ser parte da história dela, também é parte da minha.
  
Minha avó e os filhos em seu aniversário de 80 anos.

Foto da minha avó com os filhos, sendo que dos 13 filhos que ela teve 04 deles faleceram inclusive o meu pai e o filho mais velho que está vivíssimo não se encontra nessa foto.


Entrevista realizada com minha avó paterna Marciana Maria das Virgens nascida em 1935 na cidade de Maragogipe

A senhora lembra de alguma história sobre os povos indígenas ou conheceu alguns deles em Maragogipe?
Eu não conheci, mas o avô de Manoel (meu avó) se casou com uma índia. Ele ia comprar cachaça para vender e esses índios vinham para a estrada pedir cachaça ai ele pegou e trouxe (sequestrou) essa índia para casa criaram a índia acho de deram o nome dela de Suzana, depois de criada ele se casou com ela. No início ela não queria comer mas depois conseguiram amansar ela. 

Em relação aos escravizados a senhora chegou a conhecer alguma história sobre eles?
Na minha época não tinha mais escravos. Papai contava que ali onde Didi morou faziam muita perversidade com eles, trabalhavam a semana toda. Os donos dos escravos se relacionavam com as escravas e quando os filhos nasciam eram jogados no forno para não descobrirem que o filho era dele.

Lembra do período que chegou energia elétrica?
Na cidade mesmo não, eu não me lembro, mas usavam lamparina. Em um arraiazinha chamado Boa Pira tinha aquelas máquinas para botar a luz. Tinha também lamparina que colocava azeite para acender, tinha de todos os tamanhos. Usavam mais a lamparina quem era rico, o lampião veio depois. Eu usava mais lampião e candeeiro a gás.

A senhora conheceu alguém que trabalhou na Suerdieck?
Antes da Suerdieck meu bisavô vendia fumo em Coqueiros. Minha irmã trabalhou na Suerdieck, teve que modificar a idade porque tinha 14 anos quando começou a trabalhar lá. A empresa demorava de pagar e as vezes pagava o salário pela metade aos funcionários. Depois a empresa fechou e foi para Cruz das Almas.

Qual era a festa da cidade de Maragogipe que o povo mais se mobilizava em participar na sua época?
São João e o Natal eram as festas mais animadas. E São Bartolomeu em 24 de agosto. A festa da cidade não era todos os pobres que vinham não só vinham para a procissão, porque não tinham o capital (dinheiro) para vim, era muito longe, não tinha carro, não tinha nada.

Porque a senhora veio mora em Salvador?
Eu vim morar aqui porque os meninos (os filhos) já estavam tudo aqui trabalhando. Primeiro veio uma das filhas mais velhas e depois os outros vieram para trabalhar também.

Mudou muita coisa aqui no bairro (Beiru/ Tancredo Neves) de quando a senhora chegou para os dias atuais?

Sim. Os terrenos eram vendidos em lotes de arrame farpados e depois foram construindo uma casa em cima da outra. 

17 comentários:

  1. Fico tão emocionada quando ela conta as histórias, mas escrita fica mais real na imaginação. Uma das mulheres mais fortes que eu já conheci em toda minha vida, tanta história pra contar... Agradeço a Deus por ser neta dela. Parabéns Gil pelo belo trabalho!

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  2. Lindo trabalho e linda história de vida!!!

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  3. Históriaa emocionante, Gil!!!! Sempre bom relembrar nossos bons momentos em família e aqueles que amamos!!!

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  4. Parabéns pelo trabalho, Gil! Certamente, sua avó relembrou as lembranças de quando vivia em Maragogipe!Deve ter sido fantástico para ela.

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  5. Emocionante ler estes relatos, muito importante para a história familiar e para a cidade de maragogipe...fiquei tão entusiasmado que vou propor na escola em que trabalho fazer um relato da história de candeias com seus moradores. Parabens Gilmaria Felipe

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  6. Gil... Belo trabalho!!! Deve ter sido emocionante para vocês relembrar juntas essa história! Muito bom!!!

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  7. Parabéns, muito bom ter memorias boas pra contar não é !! Senti falta da minha vo que também me fez muito feliz 😊

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Parabéns Gil... Muito Interessante e bomito seu trabalho,é sempre bom relembrar os melhores momentos da nossa vida !!

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  10. Poder desfrutar do relato de uma senhorinha,sobre o sentimento de pertencer a determinada localidade ,com as histórias vividas,com o avanço e mudanças ao longo do tempo,nos faz reafirmar a importância histórica e cultural da cidade de Maragogipe.



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